 | Cheap Quotes | Aug 10, 2004 |
"Para que a gente escreve, se não é para juntar nossos pedacinhos?" (Eduardo Galeano, "O Livro dos Abraços") 
Bachianinha n. 01, de Paulinho Nogueira, na versão esforçada e bem intencionada de Pedro Lemos. Um probleminha num dos canais de áudio comprometeu a gravação ... para melhorar um pouco, dê dois cliques no ícone do volume e coloque o balanço todo à esquerda. O mais é culpa da baixa qualidade do violonista.
Bachianinha.wmv (18.3 MB)
Link: http://br.geocities.com/varalvesSexta-feira insalubre esta última ... a chuva e o frio pediam sopa, lareira, livro, namorada, enfim, tudo exceto discussões astronômicas ... ainda assim, o auditório do Planetário da UFSC se encheu de colegas ansiosos para ouvir a palestra de Avelino Alcebíades Alves ... que receberia ao final a justa homenagem pela sua octagésima revolução solar.
Grande contador de histórias, dono de uma criatividade peculiar e nobre representante da cultura manezinha, Avelino resolveu dedicar sua aposentadoria aos estudos astronômicos ... pouco tempo depois era já reconhecido como um dos melhores observadores de estrelas variáveis do hemisfério sul.
Se não fosse por figuras como essa, capazes de inspirar gerações de gente boa, a vida seria mesmo insuportável.
 | Bourrée | Jun 23, '08 1:08 PM for everyone |
Bourrée, de João Sebastião Bach, na versão esforçada e bem intencionada de Pedro Lemos. Um probleminha num dos canais de áudio comprometeu a gravação ... para melhorar um pouco, dê dois cliques no ícone do volume e coloque o balanço todo à esquerda. O mais é culpa da baixa qualidade do violonista. Bourree.wmv (6.2 MB)
Link: http://lro.jhuapl.edu/NameToMoon/index.phpQue tal ver uma parte de você vagando pelo espaço sideral? Ou então enviar à lua o seu nome e o do amor da sua vida, um do ladinho do outro, só para vê-los voltar à terra na forma de raios de luar? Certo que as noites de lua cheia não seriam mais as mesmas. Quem promove essas românticas idéias é a Sociedade Planetária que, em parceria com diversas agências espaciais, vem incluindo nas missões um DVD recheado images, mensagens e nomes de terráqueos, tudo para popularizar a exploração espacial.
Claro que essa iniciativa não possui qualquer repercussão científica: se trata mesmo de uma brincadeira ... mas não deixa de ser interessante, até para nos lembrar de que as descobertas científicas visam, ou deveriam visar, um bem maior - a humanidade - e não apenas os interesses de seus ricos patrocinadores.
O prazo encerra na próxima sexta ... so, hurry up!
Um dia meu pai chegou em casa e me flagrou assistindo um episódio de Buck Rogers ... furioso, ele desligou a tevê: aquilo não era coisa para gente da minha idade. Como não? Havia ali tudo o que uma criança curtia: pistolas de raio laser, batalhas com naves espaciais e um robô que falava a língua do bidibidi. Mas não: o Buck Rogers não era boa companhia e ponto final. Hoje, assistindo a reprise da série numa emissora especializada em clássicos do passado, compreendi enfim a razão do veto: as mulheres de Buck Rogers eram por demais sensuais ... vinham em trajes futuristas, alguns tão justos que suas coxas pareciam embaladas à vácuo, outros, ainda mais ousados, tapavam apenas o essencial, detalhes aos quais eu não dava muita bola mas que foram imediatamente percebidos pelo velho, um moralista curtido na mais ardida malícia. Claro que obedeci, e sem maiores protestos, até porque o que eu gostava mesmo, naqueles tempos, era de artes marciais. Como a de todo o garoto do interior, a minha vida era uma coleção de clichês: eu morava numa rua Getúlio Vargas, estudava num colégio Castro Alves e freqüentava um Cine Roxy, especializado, claro, em filmes de kung-fu. Chegava eu cedo às matinês, não para garantir os melhores lugares e sim para plantar papéis de bala sobre as lâmpadas do palco, fazendo cobrir a sala, para desespero do lanterninha, com a fumaça fedorenta fruto da sublimação. Contudo, bastava o filme começar para eu esquecer as traquinagens e me concentrar nos ensinamentos dos mestres Shaolin ... e tão logo a sessão acabava eu corria para a rua a fim de treinar as novas técnicas com os amigos, os quais, naturalmente, não gostavam da idéia e respondiam aos meus articulados golpes ao bom e velho estilo uga-uga. Antevendo nessa mania uma vocação, que nunca existiu, minha mãe me matriculou numa academia de judô ... da qual eu fugi quando descobri que lá não haveria luta com espadas, muito menos sangue, saltos acrobáticos, enfim, nada daquelas coisas que me faziam correr ao cinema. Que graça havia naquele negócio de atirar os outros no chão e ficar contando até dez em japonês? Justamente nessa época ocorreu a grande guerra das mamonas, da qual ainda hoje a cidade comenta. Sei lá quem foi ... a autoria – ainda bem! - nunca foi apurada ... mas o fato é que um dia alguém chegou na escola com um saco de mamonas e resolveu distribui-las aos colegas com a ajuda de um bodoque ... idéia cujo mérito foi prontamente reconhecido pelo batalhão das más companhias ... assim, na manhã seguinte, dezenas de facções armadas corriam pelo pátio do colégio a riscar o espaço aéreo com mamonas, transformando o cenário numa espécie de Waterloo, mas sem ganhadores ou perdedores ... porque todos lá éramos ao mesmo tempo mocinhos e vilões, embora para a diretora a espécie fosse uma só. Não reparei a expressão de meu pai ao atender a porta e me ver ao lado do policial ... fiquei mesmo de cabeça baixa enquanto ouvia o relato das acusações que me eram imputadas ... e de cabeça baixa fui para o quarto cumprir a sentença, sem direito a contraditório ou ampla defesa ... dias depois, remida a pena, meu pai me chamou à sala para que eu ouvisse um de seus famosos sermões, comparáveis apenas àqueles discursos infindáveis com os quais Fidel Castro costumava torturar os cubanos ... só que, daquela vez, a falação foi curta e, de certa forma, suave ... as circunstâncias agravantes prometiam de fato uma longa explanação sobre o futuro terrível que me aguardaria se eu não mudasse de conduta; mas bastaram alguns minutos de recomendações e meu pai, conferindo o relógio, me liberou do suplício e se trancou em seu quarto ... surpreso com aquela mansidão, quase um afago se comparada à jurisprudência da corte, resolvi investigar: arrastando pé por pé, cheguei à porta de seu quarto e encostei cuidadosamente o ouvido ... do outro lado, nada de anormal: apenas ao fundo, bem baixinho, ouvia-se a vinheta do Buck Rogers. Vai entender esses velhos e suas más companhias ...
eis o rei da mentira, conhecedor das mais sinistras, extensas e longínquas veredas de seu território. sigo agora mesmo desmanchando verdades na corrosiva acidez da minha língua ... mas vejo logo ali o silêncio trazendo notícias de mentiras falecidas, assombrando a alegria, que foge e se esconde, longe, no castelo onde a princesa, abandonada, dorme. quisera eu que a mentira fosse apenas o desejo prescrito da verdade. mas não: ela tem efeito ativo, altera a composição dos elementos, contamina animais, vegetais e minerais, e tudo o que vemos, e sentimos, e sonhamos, carrega seu sabor adocicado, irresistível às papilas gustativas. o que são estas abstrações humanas, que nos cercam, e nos seduzem, e nos encantam, senão as mais insidiosas mentiras? o que é a flor senão a mentira do pólen? o que é a maquiagem senão a mentira da beleza? o que é o café senão a mentira do sono? gritam ao longe: eu te amo! e tu acreditas ... por que? se o amor não se confessa, não se professa, não se anuncia? o amor é crime instantâneo, desses que deixam vestígios, marcas, cicatrizes: elementos materiais de convicção. mas no inquérito da vida, verás o amor apenas confessado, cooptando palavras, que, ocas, escondem em si mil tropas de assalto. nesta síntese evolucionária somos todos ladinos, dribladores, mentirosos: somos meros ladrões de dna. quando, enfim, encontrares o mentiroso, não o condenes, ao contrário, trate-o como um igual: o que ele é senão teu cúmplice, afinal?
Link: http://www.free-scores.comQuem lida com música erudita não possui dificuldade alguma para encontrar partituras na internet. Uma rápida busca no Google e voilà: a peça desejada aparece logo nas primeiras linhas. O problema é que, as mais das vezes, as partituras disponíveis vêm sem a digitação, obrigando o músico a anotar, à caneta, as soluções para as passagens mais difíceis, o que dá um trabalho danado.
Compositores funcionam como arquitetos: eles mostram o que fazer, mas não como fazer ... o como fazer é trabalho dos engenheiros ... daí porque editoras especializadas pagam bem a certos músicos, os melhores, para que eles encontrem a maneira mais confortável de se executar uma peça, imprimindo suas dicas em edições tão caras quanto produzidas ... e essas, naturalmente, não correm soltas na internet.
Além de fornecer partituras de graça, o Free Scores viabiliza a troca de informações através de grupos de conversação, o que, além de ampliar o acesso a outros materiais, facilita sobremaneira o processo de digitação, principalmente quando nos vemos diante de uma obra cavernosa.
Claro que eu não deixaria passar esse dia in albis. Segue pois de presente um choro ... Sons de Carrilhões, de João Pernambuco ... na versão esforçada e bem intencionada de Pedro Lemos.
Um problema num dos canais de áudio comprometeu a gravação ... para melhorar um pouco, dê dois cliques no ícone do volume e coloque o balanço todo à esquerda. O mais é culpa da baixa qualidade do violonista. Sons de Carrilhoes.wmv (13.7 MB)
 | O Choro | Jun 10, '08 7:44 PM for everyone |
Sentei defronte ao negro que tocava violão, solitário, num dos cantos do botequim. Ao fundo, meu pai conversava com alguém, disfarçando nas mãos o maço de cigarros que lá fora comprar: hábito que dali trinta anos iria matá-lo. Quando a música terminou, caminhei até o palco improvisado e perguntei ao violonista o que ele havia tocado. “Um choro, meu jovem”, e completou: “o Choro da Saudade”. Olhei com interrogação o sujeito: sua expressão parecia assaz tranqüila, satisfeita, para não dizer feliz ... não havia nele o menor sinal de tristeza, uma única sombra de melancolia, embora a música que tocara fosse de fato lacrimosa. Seria mesmo estranho ver um gigante daqueles chorando como fazíamos nós, as crianças, tanto na dor fingida das manhas como naquela outra, autêntica, parceira das varas de marmelo. Quando meu pai o cumprimentou foi que reconheci o cidadão: era o professor de violão da minha irmã ... fora uma noite lá em casa, acompanhado de sua filha, uma mulatinha assustadiça que deixaram brincando comigo e que se atirou ao chão quando o telefone soou do nosso lado ... ela nunca havia visto um aparelho daquele antes e me diverti botando-a para falar com os conhecidos da família ... a menina parecia gostar da brincadeira, embora não falasse nada ... ficava apenas lá, com os lábios trêmulos e os olhos esbugalhados, a rir, rir e rir ... ria com a desconfiança de quem entra na roda pela primeira vez ... mas no fim, encarando o telefone e torcendo pelo seu tilintar, que não veio, ela não conteve a frustração e chorou... sentimento que eu experimentaria anos depois, quando me flagrei esperando, em vão, que o nome de alguém que era mais que alguém invadisse meu correio eletrônico. O mês seguinte encontrou o violão sozinho no quarto da minha irmã: ela se mudara para a capital e não sobrara espaço no carro para ele. A mansão estava amuada: era inverno e não havia música, nem aquela pronta e acabada que vinha da vitrola, nem aquela tentativa de canção que minha irmã ensaiava inspirada nas trilhas sonoras das novelas. Observei durante um tempo aquele instrumento curioso: sua silhueta feminina desafiava a sisudez e o paralelismo que dominavam o cômodo ... os móveis, os quadros, a tapeçaria, tudo sugeria uma vida em suspensão: eram elementos de uma natureza morta ... e ele, o violão, ao contrário, respirava, suspirava, irradiava vida. Cheguei mais perto, encostando o meu ouvido em sua boca, e pensei escutar, quase apagado, vindo lá do fundo, algo que parecia o soluço de quem chora baixinho ... sim, ele chorava ... chorava como quem pede um carinho, um cafuné ... chorava tal como os que morrem de saudade, no exato tom daquela melodia do bar ... tomei-o então nos braços e o levei pro meu quarto: se fosse para chorar das minhas coisas, coisas que àquela época eram já bem conhecidas, que chorássemos juntos ... e foi assim que descobri, consolando a viola, a maneira especial da qual certos homens grandes se valem para chorar.
Link: http://www.bustedtees.com/pedroSolteiros compulsórios, como eu, sabemos o efeito que uma boa estampa faz numa balada: camisetas com frases e imagens diferentes são excelentes deixas para um gajo puxar conversa com as meninas ... são como brechas no muro da timidez a permitir dizer às moças algo engraçado ou suficientemente inteligente para arrancar delas um sorriso ou, com sorte, um beijo daqueles que marcam a semana ... daí a razão das camiseterias online fazerem o sucesso que fazem ... embora essa daí talvez não seja das mais convincentes, suspeita que encontra abrigo no fato dos modelos XXL serem, justamente, os mais vendidos.
Link: http://www.citylights.comQuem curte a literatura beat já deve ter ouvido falar nessa livraria de São Francisco, verdadeira Meca da beat generation. Nos anos 60, não foram poucos os magic busses que estacionaram defronte a City Lights e despejaram dúzias de beatniks ansiosos para saber das novidades poemáticas, ouvir música alternativa ou caçar os porcos côr-de-rosa voadores que escapavam dos selos de LSD. Caso você queira conhecer um pouco mais do movimento, sugiro começar com a página de Larry Keenan, fotógrafo oficial da turma.
Começou quando eu trabalhava como estagiário num escritório de advocacia. Àquele tempo o Brasil enfrentava o caos bancário e não havia meio de escapar das filas: cada boleto que exigisse a chancela de um escriturário recompensava o devedor com algumas horas de desperdício de vida. Quem de alguma forma pudesse transferir essa obrigação acessória o fazia com indisfarçável alívio ... e os estagiários, serviçais sem voz nem opinião, acabavam, literalmente, pagando a conta. Certa feita, prevendo o martírio que me aguardava numa das agências mais movimentadas da capital, resolvi passar antes numa livraria: coçava-me um desejo de minimizar o ônus da servitude, uma compulsão por subir um ou dois degraus na escada da dignidade humana. Como a carteira não tinha lá muitas notas, a saída foi comprar um pocket book ... idéia que trouxe consigo um efeito colateral: bastou eu me perder na história para perder também a vez na fila. Fazer o que? Aquele que escolhe doar sua vida à causa da justiça deve abdicar do perfeccionismo, lição que o estágio nos antecipa com eficiente didática. Quatro anos de escravidão me permitiram acumular uma prateleira de livros de bolso ... quando dei por mim, eles haviam tomado conta do mundo, povoavam todos os meus territórios, do porta-luvas do carro à pia do banheiro. Confesso, todavia, que a coleção somente tomou impulso quando a minha avó entrou de sócia na parada: a danada gostava mesmo de boas histórias, pouco importava o meio em que elas se criavam ... novelas, livros, fofocas, tudo o que envolvia tramóias e suspenses ganhava a sua simpatia. Começamos aos poucos a trocar figurinhas: minha avó trazia os livros dela e levava os meus ... e como ela sempre trazia mais do que levava, logo os pockets começaram a vazar pelos cantos da estante. Quando minha avó adoeceu, reuni todos os livros de bolso que encontrei pela frente e os levei para a casa dela, sob o compromisso de tê-los como fiel depositária até que os médicos resolvessem o problema ... mas eles não resolveram: ao entrar no seu quarto, no dia do seu funeral, percebi um dos meus pockets pousado sobre o seu criado-mudo ... fiz correr suas páginas, numa tentativa de investigar em qual delas minha avó havia parado, mas acabei por encontrar apenas uma passagem que eu havia sublinhado anos antes: “O amor que ainda não se definiu é como uma melodia de desenho incerto. Deixa o coração a um tempo alegre e perturbado e tem o encanto fugidio e o mistério de uma música ao longe”. Será que eu andava apaixonado por aqueles tempos? Consultei o livro, mas ele deu de ombros. O mais provável é que eu tenha reservado a citação para o futuro, visando impressionar alguma menina com uma máscara barata de intelectual, ardil desesperado de quem não ganhou lá muitas fichas para disputar a seleção natural. Com o fim da sociedade, a mania pelos pocket books foi perdendo seu encanto, até que um dia, num acesso de bondade, doei todos para uma biblioteca ... o que, pensando bem, não passou de um termo de alforria: porque eles, aventureiros por natureza, pareciam deprimidos ali, esmagados na prateleira, recebendo quando muito a atenção da flanela que os livrava do pó. Seguiram assim seus destinos, livres como nunca antes, todos eles ... todos exceto aquele que falava de amor e música ao longe ... ele de fato continua aqui, perto de mim, para me lembrar de que, na algazarra ensurdecedora desta cidade, aumentar o volume da vitrola faz um bem danado ao coração.
Link: http://www.eol.orgDiz a introdução: "Comprehensive, collaborative, ever-growing, and personalized, the Encyclopedia of Life is an ecosystem of websites that makes all key information about all life on Earth accessible to anyone, anywhere in the world".
Uma wikipedia dos taxionomistas, em suma.
A primeira coisa que Charles Darwin fez quando o Beagle retornou foi buscar pessoas capazes de analisar as amostras colhidas durante a expedição a fim de lhes dar a devida classificação ... as conclusões desses taxionomistas formaram a base sobre a qual Charles construiu sua teoria ... todas as análises feitas a partir de então acabaram por confirmar o modelo darwiniano: onde há vida, há evolução pela seleção natural.
Observe que, além de mostrar a classificação partindo do respectivo reino, a página apresenta uma série de informações sobre a espécie em análise, incluindo seus apelidos mundo afora.
costuro palavras seguindo o molde do teu corpo: frases medidas para envolver teu coração sem apertá-lo. chegam no calor deste sangue delinqüente, debilitadas pela discrasia, e logo fogem pro teu esconderijo, roucas, maltratadas, padecentes. palavras que preenchem o vazio da minha página, disfarçando o rubor da saudade que não semeamos. palavras que não sobrevivem na insalubridade do agora mas que encontram a eternidade quando celebram o teu dia, a tua luz, a tua história.
Olha que pouca coisa realmente impactante apareceu por aqui desde que os Mutantes encerraram suas atividades. Caminhante Noturno é, do meu ponto de vista, a música que melhor traduz a personalidade do grupo: letra lapidada com cuidado artesanal, efeitos analógicos cujos sintetizadores modernos sofrem para imitar, virtuosismo, teatralidade, intertextualidade, irreverência e uma grossa cobertura de brasilidade. Chamo a atenção para o final da canção: o Arnaldo imitando o robô da série Perdidos no Espaço enquanto ao fundo se reproduz a vaia que o Caetano levou da platéia no 3o Festival Internacional da Canção.
Caminhante Noturno - Os Mutantes
No chão de asfalto Eco: um sapato! Pisa o silêncio, caminhante noturno: Fúria de ter nas suas mãos dedos finos de alguém A apertar, a beijar...
Vai caminhante Antes do dia nascer Vai caminhante Antes da noite morrer Vai caminhante ...
Luzes, câmera! Canção ... que horas são? Sombra na esquina Alguém, Maria!
Sente a pulsar um amor muscoloso Vai encontrar esta noite o amor Sem pagar, sem falar, a sonhar
Vai caminhante...
No chão, vê folhas Secas de jornal Sombra na esquina Alguém, Maria!
Pisa o silêncio caminhante noturno Foge do amor Qua a noite lhe deu sem cobrar, Sem falar, sem sonhar
Vai caminhante...
| Caminhante Noturno | | | | Os Mutantes | |
Curioso como certas histórias ganham vida própria, se rebelam contra o mundo, fogem do controle da gente. Começam como todas as outras: a idéia imprecisa de um tesouro escondido, um rabisco ao acaso, uma nau à deriva ... de repente se fazem de piratas e assim, num zás, assumem o comando, traçam rota para algum lugar sem registro no mapa e somem com o botim no horizonte poente. Quem olha de fora não imagina a impotência do escritor diante de eventos como esses ... é como se duas placas tectônicas resolvessem se roçar no mundo diegético, pondo abaixo seus palcos, seus cenários, aprisionando o eu lírico nos escombros do teatro, deixando os protagonistas por sua conta e risco ... alguns deles, os mais espertos, aproveitam a confusão para rever seus papeis na peça ou reivindicar melhores condições de trabalho. Lembro de uma prosa que arrastei com o meu compadre Erico Verissimo anos atrás. Confessava-me ele então a dificuldade que enfrentara para matar um médico chamado Seixas: recrutado para uma consulta fugaz num romance, o doutor se revoltou contra seu destino insosso, sacou uma personalidade escondida nas mangas e exigiu um lugar ao sol ... e no sol foi ficando, ficando, vindo a morrer somente dois livros depois. Comigo ocorreu o exemplo inverso. Cobri uma folha em branco com o esboço de uma aventura, uma história com cheiro de epopéia ... ao centro, um espaço gigante à heroína. Um dia ela apareceu, curiosa, com uma configuração dessas de deixar o gajo arrependido de todos os bons momentos vividos longe dela ... imprimi sua descrição na página e fui sonhar um final feliz, algo com declarações físicas de amor ou coisa parecida. Quando, na manhã seguinte, abri o caderno, cadê ela? Conferi as bordas e a flagrei correndo, desesperada, com os braços abertos, implorando para ser aceita numa história mais leve, algum musical, uma comédia romântica, qualquer coisa que não aquela trama farroupilha. O que fazer nessas horas? Correr atrás dela, ameaçá-la com o lápis-borracha, forçá-la a cumprir o destino que lhe reserva o rascunho? Claro que não. Domar a heroína é atribuição da história e não do autor ... e trazê-la assim, subjugada, nada mais faria senão comprometer o investimento: bastaria uma distração, uma simples discussão no elenco, e ela fugiria, assustada, atrasando o ensaio, tumultuando a coxia, magoando o diretor. Só nos resta compreender a personagem, respeitar sua vocação, deixá-la decidir seu destino. Quanto à descrição na minuta, o melhor é protegê-la numa pasta apropriada, livre da sanha das traças ... afinal, é sempre bom ter alguma coisa para pronta entrega caso uma passante apareça do nada e, num grito enraivecido de liberdade, bata o pé e resolva ficar.
O outono é mesmo a melhor estação para astrônomos amadores: as nuvens ficam mais tímidas, as constelações são mais bonitas, os mosquitos dão uma trégua. Um pouco de sorte e as noites ficam perfeitas: no menu da semana estão Marte, Saturno, Júpiter, a Lua em seu crescente, e, de sobremesa, um cometinha surgindo no horizonte. Aqui na terra, um gosto estranho nesta sopa de letrinhas. Um agito desses pede uma trilha sonora adequada.
Busca Vida - Paralamas do Sucesso
Vou sair pra ver o céu Vou me perder entre as estrelas Ver daonde nasce o sol Como se guiam os cometas pelo espaço E os meus passos, nunca mais serão iguais
Se for mais veloz que a luz, então escapo da tristeza Deixo toda a dor pra trás, perdida num planeta abandonado no espaço. E volto sem olhar pra trás
No escuro do céu Mais longe que o sol
Perdido num planeta abandonado No espaço...
Ele ganhou dinheiro Ele assinou contratos Comprou um terno Trocou o carro E desaprendeu A caminhar no céu E foi o princípio do fim
Se for mais veloz que a luz Então escapo da tristeza Deixo toda a dor pra trás Perdida num planeta abandonado No espaço e volto sem olhar pra trás ...
| Busca Vida | | | | Os Paralamas Do Sucesso | |
Um dia você acorda e ouve comentários de que há algo estranho no céu ... à noite você se põe a olhar as estrelas e percebe uma mancha discreta no meio de alguma constelação conhecida, mancha esta que aumenta e fica mais brilhante nos dias seguintes, tomando enfim a forma de um cometa ... ao passo de uma semana, a cauda do cometa ocupa uma faixa do céu capaz de ligar um horizonte ao outro ... antevendo a colisão daquela coisa contra a terra, você corre à igreja mais próxima e roga aos deuses para que salvem o planeta ... generosamente eles atendem ao pedido e o cometa, como que empurrado por um sopro divino, parte para longe ... e tudo o que resta dessa angustiante experiência é o teu coraçãozinho aliviado, a tua fé renovada e um rastro de poeira que dará um belo espetáculo quando encontrar a nossa atmosfera. Sustos como esse ocorreram diversas vezes no passado e alguns deles, devido à maior repercussão, acabaram nas páginas de romances famosos. Quem se der ao trabalho de ler O Tempo e o Vento, por exemplo, encontrará o testemunho do pandemônio causado pelo rasante do Halley no início do século passado. Observando a imprecisão, em clássicos da literatura brasileira, de várias citações a cometas, o astrônomo Ronaldo Mourão, em sua Introdução aos Cometas, incluiu um capítulo dedicado a preencher os espaços que os escritores deixaram em branco. Um dos cometas analisados foi, justamente, aquele citado nas Cartas Chilenas. As Cartas Chilenas circularam pelas ruas de Vila Rica/MG entre os anos de 1787 e 1788, e visavam, em tom satírico, denunciar os desmandos cometidos por Cunha Menezes, então Governador da Capitania. Ciente de que sua conduta poderia levá-lo à forca, o autor das Cartas Chilenas tomou certos cuidados: primeiro, fez circular os fascículos anonimamente, embora tenha deixado digitais escondidas entre os parágrafos; segundo, deu à narrativa um tom poético, com inversões sintáticas e alegorias de toda a sorte, afastando-a da linguagem cotidiana e fomentando dicotomias insidiosas; terceiro, forjou uma dedicatória a fim de associar a sátira a fatos ocorridos em outro país, alguns anos antes de sua mentirosa tradução ao português, alterando assim o tempo e o espaço diegéticos. Por representar uma das primeiras obras inspiradas no sotaque tupiniquim, as Cartas Chilenas assumem relevância no contexto histórico-literário brasileiro. Com efeito, além da crítica local, o missivista traduziu o sentimento de nação que já crescia no horizonte, ora questionando a condução dos interesses da metrópole, ora louvando os frutos da terra. Como a posse de Cunha Menezes coincidiu, com poucos meses de diferença, com o avistamento de um cometa no Brasil, este fato foi tomado pelo autor das cartas como um mau presságio, mito recorrente em efemérides dessa natureza. Segundo o parecer de Mourão, tal cometa seria o De la Nux, descoberto por Jean Baptiste de la Nux em 1758 e avistado no Brasil pelo astrônomo Sanches Porta em janeiro de 1784. Contudo, dados periféricos relacionados à história das Cartas Chilenas me permitem especular um pouco mais sobre o tema. Sim, sou agora um astrônomo com mais de trinta anos de luneta, capaz de farejar o rastro de um cometa de cachaça perdido nos subúrbios do sistema solar e ainda traçar-lhe a órbita com os olhos vendados. Cuidado comigo. Vamos aos fatos. Apesar do De la Nux ter sido um cometa brilhante e seu avistamento, no Brasil, coincidir com a posse do dito Governador, ele apresentava uma cauda de apenas seis graus, bastante modesta se comparada aos grandes cometas da história. Confira agora o relato das Cartas Chilenas: Por ver se a dor divirto, vou sertar-me Na janela da sala e ao ar levanto Os olhos já molhados. Céus, que vejo! Não vejo estrelas que, serenas, brilhem, Nem vejo a lua que prateia os mares: Vejo um grande cometa, a quem os doutos 'Caudato' apelidaram. Este cobre A terra toda co disforme rabo. Aflito, o coração no peito bate. Eriça-se o cabelo, as pernas tremem, O sangue se congela, e todo o corpo Se cobre de suor - Tal foi o medo. Observe que o missivista faz referência a um grande cometa, digno de cobrir toda a terra e de ofuscar as estrelas, dramaticidade esta, convenhamos, por demais exagerada se confrontada com os modestos dados relacionados ao De la Nux. Com efeito, uma narrativa de tal intensidade guardaria mais coerência se dissesse respeito ao último grande cometa registrado até então, aquele avistado por Messier em 1769 e dotado de uma cauda superior a noventa graus, esta sim capaz de deixar a população em polvorosa. Mas como explicar a diferença de 15 anos havida entre os dois cometas? Considere, antes de tudo, a estratégia de defesa do autor, em especial, a alteração do tempo diegético: a menção a um cometa que teria aparecido 15 anos antes da circulação das cartas cairia como uma luva àquele que quisesse dissociá-las do âmbito local. Sem embargo, há um argumento ainda mais forte, o qual, todavia, envolve a revelação do mentor das Cartas Chilenas ... é que especialistas no assunto confrontaram o teor das cartas com outros textos da mesma época e local, e confirmaram aquilo que as suspeitas já apontavam com assaz precisão: muitas das palavras havidas nas Cartas Chilenas existiam apenas nos escritos de Tomás Antonio Gonzaga, o arquiteto da Inconfidência Mineira. Como Tomás viveu em Portugal até 1781, é razoável aceitarmos que ele tenha testemunhado o tumulto decorrente do rasante do Messier e resgatado a experiência para as suas Cartas Chilenas, assentando assim a coerência do tempo diegético. Caso essa minha inútil teoria esteja correta, as Cartas Chilenas não referenciariam apenas um, mas dois cometas: o De la Nux, avistado no Brasil em 1784 e relacionado aos fatos ocorridos em Vila Rica, e o Messier, avistado na Europa em 1769 e utilizado por Tomás para fortalecer a distorção do tempo da narrativa, especulação que se coaduna com a dicotomia que tempera todos os parágrafos da obra. Cometas são assim mesmo: fragmentos de rocha envolvidos por uma grossa camada de gelo poroso, recrutados da periferia do sistema solar para enfeitar o céu da noite ... são efemérides que chegam devagar, como quem não quer nada, primeiro atraindo nossa curiosidade, depois nos seduzindo ... quando finalmente nos rendemos aos seus encantos, elas mudam a direção, e, tal como chegam, vão embora, deixando um rastro de emoções alvoroçadas que, não raro, encontram repouso nas macias linhas de um poema ... o que, enfim, não deixa de ser um bom consolo para corações aflitos.
Cada dia é meio como um filme: atores, enredos, cenários, enfim, elementos de um capítulo cujo gênero definimos no último piscar antes do sono. Se é assim mesmo, segue a trilha sonora desta sexta-feira ... porque hoje me sinto personagem de um road movie, seguindo o sol com sua motocicleta, sem amores na garupa, sem amarras na vida. O clipe oficial está aqui: repare que um boneco faz as vezes de baixista.
Status Quo - Rocking All Over the World
Ah here we are and here we are and here we go All aboard and we're hitting the road Here we go, rockin' all over the world
Ah giddy-up and giddy-up and get away We're going crazy and we're going today Here we go, rockin' all over the world
And I like it, I like it, I like it, I like it I li-li-like it, li-li-like Here we go, rockin' all over the world
I'm gonna tell your mama what you're gonna do Come on out with your dancing shoes Here we go, rockin' all over the world
And I like it, I like it, I like it, I like it I li-li-like it, li-li-like Here we go, rockin' all over the world
And I like it, I like it, I like it, I like it I li-li-like it, li-li-like Here we go, rockin' all over the world
And I like it, I like it, I like it, I like it I li-li-like it, li-li-like Here we go, rockin' all over the world | Rockin' All Over The World | | | | Status Quo | |
| |